Cultura Guarani

Nós os Guaranis Mbya estamos em várias regiões da América do Sul. Há aldeias na Argentina, Paraguai e Bolívia. Estamos na região do litoral do Brasil, nos estados que vão do Rio Grande do Sul até o Espírito Santo. Há também aldeias no Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Tocantins. Somos no Brasil a maior etnia indígena,somando aproximadamente 35 mil Guaranis.
Acreditamos que o planeta foi feito por Nhanderu, o nosso deus. Ele fez muita coisa bonita; a mata, as aves, os animais, as águas, a terra em que plantamos, tudo o que criou foi para que usufruíssemos. Nhanderu também criou o Sol, e para nós, ele não é só uma simples estrela de luz própria, como é para os juruas. O Sol é um ser muito representativo para nós, porque foi ele quem criou o primeiro Guarani. É ele que ilumina a Terra e fornece a energia para que o planeta tenha essa energia positiva que dá a vida.
Somos um povo bastante religioso. No nosso dia a dia, o guarani está sempre em busca ou ligado a essa força espiritual de Nhanderu, do Sol. Todas as coisas que fazemos - nosso trabalho, as brincadeiras das crianças - são voltadas para essa busca.
Nosso calendário não é como o do jurua, ele é dividido em ara pyau, tempo novo e ara ymã, tempo velho. Essa divisão está ligada à trajetória que o Sol faz. O ara pyau para nós é o período de primavera e verão, quando o dia é mais longo e o sol faz uma caminhada maior, e o ara ymã é no outono e inverno, no período de frio, nesta época em que o dia é mais curto.
Todos os dias nós nos encontramos na Opy, a Casa de Reza, para cantarmos e dançarmos, para rezar a Nhanderu e os mais velhos ensinam as crianças o nosso conhecimento ancestral. Na aldeia nossa principal liderança é o xeramoi, o nome do pajé Guarani. Aprendemos, no nosso cotidiano, a importância de todos os seres e que cada elemento da natureza tem um espírito. O Guarani acredita muito nesses seres porque são eles que dão a vida para nós. Nos manda a chuva, a água e tudo que precisamos para nos manter vivos. Desta forma, estamos muito ligados à natureza. Se este ambiente acabar o Guarani ficará sem estrutura, então lutamos para manter tudo isso que Nhanderu criou.
Com a vinda dos portugueses e a colonização, tivemos que nos fixar em territórios pequenos onde não podemos mais caçar e realizar outras atividades tradicionais. O Guarani vive porque mantêm essa força espiritual que faz com que ele fique em harmonia com a natureza e o faz se sentir forte.
Hoje, nós Guarani Mbya, buscamos parceiros para defendermos nossos espaços, que mesmo demarcados, sofrem algum tipo de pressão. Parceiros que possam nos ajudar em mantermos tudo que foi nos deixado de bom. O jurua está acabando com o planeta Terra e nós estamos preocupados com isso. (Marcos Tupã da aldeia Krukutu)

Petyngua

É o nosso cachimbo sagrado. A fumaça que sai de nossos petynguas leva os pensamentos até Nhanderu. Começamos a fumá-lo ainda pequenos para estimular, desenvolver a religiosidade desde criança para que quando ela passe para a adolescência, e se tiver o dom, se tornar um pajé. Em todos os momentos em que o Guarani está em busca espiritual para se fortalecer em suas atividades, usa o petyngua. Cada vez que fazemos uma reza, alguma atividade religiosa, quando estamos na Opy, nós o usamos. Ele purifica as forças negativas que estão no lugar em que ele é fumado. O petyngua pode ser feito de vários materiais, como por exemplo, argila, que pode ser misturada com ossos de caça para ter maior resistência, e madeira. Nas aldeias da região Sul, o petyngua é feito com o nó de pinho, já que este material é bastante resistente ao calor. O cachimbo também pode ter formato de um animal, como um papagaio. Antigamente o fumo usado era plantando nas aldeias, hoje se usa fumo de corda comprado.

Artesanato

Artesanato antes do envolvimento da sociedade, os objetos vendidos hoje como artesanato eram feitos para uso na comunidade. Os caçadores faziam seus arcos e flechas e a cesta de uso das mulheres, que serviam para trazer mandioca, batata doce e coisas plantadas na roça. A cesta era usada para guardar alimentos durante meses, anos. A falta de matéria prima e a dificuldade do cultivo da terra limitadas pelas demarcações da área, tornou difícil o cotidiano tradicional Guarani. Apareceram então outras necessidades para nos mantermos nas aldeias. O Arco e flecha se tornaram artefatos para. A venda desses nossos objetos foi um dos meios que encontramos para nos sustentar. Essa prática surgiu da sociedade, a sociedade veio na aldeia e achou bonito e começamos a fazer essa troca. Nós temos uma cesta que é feita só para guardar sementes e tem uma que é só para carregar mandioca e batata doce. A cesta junto ao arco e flecha, o colar, o cocar são feitos em algumas épocas do ano. Os colares do xamõe e o petyngua fazemos com mais freqüência porque usamos sempre. A nossa cestaria é feita de taquara de bambu. Os desenhos da cesta são feitos com cipó imbé ou com ximbopeva, que dão aquela cor pretinha. Com eles nós fazemos como se fosse uma fita e trançamos com a taquara de bambu. Os desenhos são geralmente iguais, tanto nas cestas quanto no arco e flecha.. Os mais freqüentes são os desenhos que representam a cobra, a partir deste mais comum, outros desenhos podem surgir da imaginação, da criatividade de quem faz. Nosso artesanato, originalmente trabalhava com quatro cores. O vermelho, que tirávamos do urucum, o amarelo que vinha da planta que é conhecida como açafrão, uma bromélia, uma raizinha, que dá uma cor amarela, a cor preta do jenipapo e o tom cinza da mistura da cera de abelha e cinza de madeira. Atualmente, por causa da falta de material na nossa aldeia, usamos outros corantes artificiais. Há também o nosso colar típico, de contas pretas e brancas. Ele é feito, com a kapi'i'a,que é conhecida como lágrima de nossa senhora e com uma sementinha pretinha o y'vau. Este colar, usado pelo xamõe ou por outras lideranças na casa de reza, é um colar religioso e não pode ser vendido.É mais comprido, dá umas três quatro voltas e é cruzado no peito.

Canto e dança

Cantamos com as crianças na Opy e nossa reza também é em forma de canto. Cantamos e dançamos na Opy todo fim de dia. Todas as letras de nossas músicas são em Guarani e falam da natureza, da busca pela Terra Sem Mal, do nosso fortalecimento espiritual. Nossos cantos são recebidos em sonhos pelas nossas crianças e nossos pajés e passados para a comunidade. Se o Guarani está forte espiritualmente ele tem um canto próprio.

Xondaro e Tangará

Xondaro eram os guardiões das nossas aldeias antigamente, quando não havia contato com o jurua e era preciso proteger a aldeia de outras comunidades inimigas. Eles se preparavam para preservar a vida do pajé e da comunidade. Hoje é uma dança masculina, que ainda mantém esse significado de guardar a aldeia, vigiar a Opy nas cerimônias e para manter a saúde e o equilíbrio. Sempre no final do dia tem a dança do xondaro na Casa de Reza. A dança feminina Guarani é o tangará . Na dança as meninas ou mulheres imitam os pulinhos do pássaro que tem este nome. Elas dançam na Opy ou no terreiro fora da casa depois da reza. Dançamos lembrando tempos passados e para buscar a força espiritual através da dança. Ficamos alegres quando dançamos.

Culinária

Mantemos as receitas de pratos típicos na aldeia. Além da caça e pesca, usamos muito o fubá, milho verde, mandioca, jety (batata doce), amendoim e farinha de mandioca que fazemos mbeju. Algumas coisas que sempre fazemos e gostamos de comer é a canjica, de preparar jopara, que é uma canjica com feijão preto, xipa, uma massa que fazemos com farinha, água e sal e fritamos.

Erva Mate (Chimarrão)

Quem primeiro cultivou e usou a planta erva mate foram os Guarani. Elemento importante na nossa cultura, ele tem grande participação no nosso cotidiano. Na cerimônia de passagem ara ymã para o ara pyau batizamos ramos da planta que representa o nome espiritual do guarani que busca o fortalecimento dos espíritos de luz que o seu nome representa. Os nomes Guarani vêm das nossas quatro regiões cosmológicas. Chamamos essa cerimônia da erva mate de ka'a nhemongarai. O uso da erva mate foi um costume incorporado pelos jurua, principalmente os que moram no sul do nosso continente. È chimarrão em que tomam a erva com aguá quente, modo tradicional Guarani, e também na região do Centro Oeste brasileiro aonde a erva é tomada com água fria.

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